Volmer Campos Soares

Jovens protestam no interior da Bahia e são ameaçados por grupo maçônico

September 10, 2009

Venho relatar os acontecimentos desta última segunda-feira, quando em mais um ano me juntei a um pequeno grupo de jovens na cidade de Correntina, interior da Bahia, nossa cidade natal, para realizar uma manifestação de caráter pacífico durante o desfile do 7 de setembro.

Estávamos em seis. Um pequeno grupo, porém significativo, que foi capaz de marcar a cerimônia, arrancando críticas, espantos, xingamentos e até elogios. Chegamos cedo no local, aguardamos pacientemente debaixo do sol de lascar da manhã baiana até a procissão patriótica se aproximar. Iniciamos então nossa pequena ação, levantando cartazes, com dizeres como "Não há nada a se comemorar", "Desgoverno em ação", "Pelo quê você marcha?" e "Diga não à droga do estado", e também distribuindo panfletos informativos para o povo ali presente, com críticas sobre a veracidade da louvada "independência" e a razão da comemoração nacionalista diante do quadro social grave no qual afunda esse país. Durante os discursos, reagimos com energia às mentiras históricas proferidas e ao populismo dos donos do poder presentes no palanque.

Seria engraçado se não fosse triste ver o nível em que a coisa acontece aqui no interior. No desfile do 7 de setembro ficam evidenciados os grupos que dominam o poder em Correntina, com suas alas pomposas marchando e seus líderes satisfeitos convidados ao palanque: políticos e ex-políticos, coronéis latifundiários, burgueses, patriarcas das famílias oligárquicas, igreja católica, igrejas evangélicas, maçonaria. E esta merece uma atenção especial aqui.

A maçonaria historicamente detém um poder descomunal, com seus tentáculos influenciando o meio político, militar e jurídico. Em nossa cidade esse poder ainda é mais evidente, pois os ricos comerciantes, vereadores, prefeitos e tantos detentores de cargos altos daqui são em sua maioria maçons. A maçonaria tem assegurado por meio dessas influências o controle da política no interior do oeste, ao lado das famílias poderosas e das instituições religiosas, tudo isso sob uma fachada de filantropia. Essa influência se estende também sobre as mentes dos jovens, através da Ordem Demolay, grupo paralelo ogranizado pelos maçons a fim de incluir seus filhos homens e outros garotos selecionados na doutrina maçônica, em um direitismo perigoso baseado em patriotismo, religiosidade, hierarquia e a fidelidade a uma honra de caráter paramilitar que dizem exceder o valor da própria vida.

A Ordem Demolay também tem sua ala garantida no desfile do 7 de setembro, graças ao poder incontestável da maçonaria no município, e ficaram especialmente furiosos com nosso protesto. Primeiramente há o motivo óbvio, estávamos nos manifestando contra valores que são base da sua doutrina, como o patriotismo e a hierarquia. Também por um de nossos companheiros ser um membro dissidente dessa Ordem, arrancando ódio dos jovens maçônicos ao ver a autoridade absoluta de seu grupo ruir de dentro. Durante a marcha, ao passarem pelo nosso protesto, um dos Demolay que é nosso conhecido tentou nos saudar, mas foi imediatamente censurado pelos demais, abaixando a cabeça. Vendo isso, questinoei a eles: "a maçonaria é liberdade, deixa o cara falar!" Olhares de ódio se viraram contra mim, prenunciando o que ocorreria em seguida.

Finalizado o desfile, os Demolay vieram em um rompante pra cima do nosso grupo. Enquanto nos cercavam, os mais velhos nos abordaram em tom de intimidação, nos insultando, classificando nossa maninfestação pacífica como "coisa de gente de merda", mencionaram rasgar nosso material e tomar nossa câmera, enquanto nos mantínhamos íntegros em defensiva, na prevenção de um confronto. Agiram em um ganguismo impressionante, em um número muito maior nos cercaram (estávamos apenas em seis, três homens e três mulheres, diante de quase vinte Demolays). Talvez por um carro da polícia militar nas proximidades não fomos agredidos fisicamente. Por fim, nos ameaçaram de forma clara: "se eu ver algum de vocês falando mal da maçonaria eu quebro a cara". Mais intimidadoras foram as palavras do líder da Ordem, o dito Mestre Conselheiro: "apagem nossas fotos e nossos vídeos, e se vocês em algum momento falarem mal da maçonaria, vocês vão se dar muito mal, vocês vão se ferrar", isso com o respaldo dos demais. Temendo por nossa segurança nos retiramos.

A maçonaria mostra suas garras, essa é a face dos membros da Ordem Demolay, grupo criminoso (Artigo 147 do Código Penal) que através da influência de seus ditos "tios" maçons na política, no judiciário e nas corporações vê caminho aberto para ações acima das leis e para a permanência em total impunidade. No interior isso é ainda mais grave, pela ausência de organizações que reivindiquem direitos de minorias ou se oponham aos donos do poder, como sindicatos, coletivos, movimentos estudantis, etc. Essa intimidação criminosa ainda fere a liberdade de expressão, um dos nosso poucos direitos ainda garantidos na teoria que nos permite agir por um mundo menos desigual. Seria essa violência um caso isolado aos Demolay de correntina? E os relatos sobre atos de violência praticados por grupos da Ordem de outras cidades?

Nossa manifestação foi bastante positiva, levantamos críticas e repúdio, como esperado, mas também recebemos o afeto de parcelas da população que apóiam nossos motivos e acreditam em mudança, apesar de continuarem com medo de agir diante do coronelismo extremo e do poder absoluto do estado e de instituições como a maçonaria. Por rompermos com essa barreira de medo fomos vítima de ameaça, fomos reprimidos, mas não vamos nos calar. Em meio à repressão podemos nos tornar mais fortes, nossa luta revigora, continuaremos denunciando a hipocrisia, os abusos, as desigualdades e os crimes desta terra sem lei.

Agradecemos o apio que estamos tendo, e pedimos aos companheiros que repassem esse caso por e-mail, blogs, zines. Essa denúncia deve ecoar. Agradeço a todos.

NÃO À REPRESSÃO!