Volmer Campos Soares

O Assalto

April 6, 2014

Conheço gente que tem a incrível capacidade de lembrar facilmente de acontecimentos da infância em mínimos detalhes. Invejo, pois minhas memórias são quase sempre vazias, mudas e confusas, com cenas que vêm e vão embaralhadas em uma completa falta de ordem.

Assim são minhas lembranças da noite do assalto. Às vezes tudo começa já em casa, na madrugada, com toda a família amarrada; outras vezes a memória tem início nos assaltantes falando baixinho, dando ordens, exigindo bens. Tento compilar todos esses flashes em uma sequência lógica, mas temo que o resultado final possa ser bizarro e passe longe do que aconteceu de fato. De qualquer forma, eis minha melhor tentativa.

Era tarde da noite e voltávamos para casa meu pai, meu irmão e eu após encerrado o expediente no posto de gasolina. Suponho que minha mãe trabalhava à noite, e a essa hora ela já poderia ter chegado em casa. Enquanto o carro era estacionado na garagem vi da janela que a TV da sala estava ligada, o que lembro ter me causado estranheza. Tudo bem que minha mãe já teria chegado, mas ela nunca ficava vendo TV, aquela máquina abominável de "cultura inútil", como ela dizia.

Entramos em casa e após atravessar a sala vazia me virei para o meu quarto, onde vi minha mãe sentada na cama, de frente para mim, com um homem de capuz em pé apontando uma arma para a cabeça dela. Olho para trás e vejo meu pai já rendido por outro homem armado. Não entendia do que se tratava. Era uma piada? Quem eram aquelas pessoas? Minha pouca idade me impedia de compreender a gravidade da situação, e talvez por isso eu não tenha chorado ou surtado de alguma forma.

O bandido de rosto à mostra era negro, de olhos grandes e parecia não se preocupar em mostrar sua identidade. Já o outro esforçava-se em se esconder: vestia um hoodie cinza e cobria toda a face com algo que o deixava com um rosto de Nazgûl, além de que só falava por sussurros asmáticos que precisavam ser frequentemente traduzidos pelo companheiro.

Em certo momento meu pai levado por um deles ao posto de gasolina fazer a limpeza do cofre, que supunha o assaltante estar cheio dos proventos da semana. Não sei se o saque foi tão lucrativo, mas o bandido retornou com meu pai e então nos amarraram e nos amordaçaram com pedaços de nossos lençóis, rasgados ali mesmo. Lembro do meu irmão sendo amordaçado e não consigo ter certeza se ele estava chorando ou rindo.

Deixaram-nos presos no quarto dos fundos da casa, com exceção do meu pai, que ficou confinado em um cômodo separado. Os assaltantes foram embora no nosso carro levando o que puderam carregar. Pouco tempo depois meu pai conseguiu se desamarrar e me recordo dos seus berros ao vizinho, pedindo socorro. Conseguiram nos libertar e meu pai foi de bicicleta à polícia (sério, memórias?), jurando vingança aos que ele chamava de "ladrões de galinhas". Não pude entender onde as aves se encaixavam na trama do assalto.

Sei que a polícia apareceu, mas não sei o quão implacável foi mesmo a perseguição aos ladrões. Dias depois vi meu pai dirigindo novamente o carro roubado, e nos tempos seguintes o assunto do assalto voltava nas conversas com detalhes complementares ao seu desfecho. Ouvia que os bandidos haviam sido capturados numa cidade vizinha, ou até mesmo mortos em confronto com a polícia.

Esta é a melhor cronologia que consegui montar das memórias do assalto. Só não consigo encaixar em qualquer ponto dessa sequência uma informação: a AIDS. O fato ou boato de que o bandido encapuzado era HIV positivo paira em meio às lembranças, mesmo não tendo qualquer sentido ou relevância. Teria o próprio assaltante se declarado aidético enquanto nos amarrava ou o povo teria espalhado o boato depois? Além do mais, o bandido ter AIDS o faz ser mais temido? Talvez por não ter nada a perder, como dizia-se dos soropositivos nos anos 90? Boatos carregados de preconceitos sempre confundem as coisas.

No fim das contas, para mim o mistério mais intrigante ainda era o porquê de somente um deles ter ocultado sua identidade. O sinistro Nazgûl deveria ser alguém conhecido da família, supunha eu. E mesmo quando ninguém mais falava do assalto, em minha imaginação caótica todos à minha volta eram suspeitos.