Conheço gente que tem a incrível capacidade de lembrar facilmente de acontecimentos da infância em mínimos detalhes. Invejo, pois minhas memórias são quase sempre vazias, mudas e confusas, com cenas que vêm e vão embaralhadas em uma completa falta de ordem.

    <p>Assim são minhas lembranças da noite do assalto. Às vezes tudo começa já em casa, na madrugada, com toda a família amarrada; outras vezes a memória tem início nos assaltantes falando baixinho, dando ordens, exigindo bens. Tento compilar todos esses flashes em uma sequência lógica, mas temo que o resultado final possa ser bizarro e passe longe do que aconteceu de fato. De qualquer forma, eis minha melhor tentativa.</p>
    <p>Era tarde da noite e voltávamos para casa meu pai, meu irmão e eu após encerrado o expediente no posto de gasolina. Suponho que minha mãe trabalhava à noite, e a essa hora ela já poderia ter chegado em casa. Enquanto o carro era estacionado na garagem vi da janela que a TV da sala estava ligada, o que lembro ter me causado estranheza. Tudo bem que minha mãe já teria chegado, mas ela nunca ficava vendo TV, aquela máquina abominável de &amp;ldquo;cultura inútil&amp;rdquo;, como ela dizia.</p>
    <p>Entramos em casa e após atravessar a sala vazia me virei para o meu quarto, onde vi minha mãe sentada na cama, de frente para mim, com um homem de capuz em pé apontando uma arma para a cabeça dela. Olho para trás e vejo meu pai já rendido por outro homem armado. Não entendia do que se tratava. Era uma piada? Quem eram aquelas pessoas? Minha pouca idade me impedia de compreender a gravidade da situação, e talvez por isso eu não tenha chorado ou surtado de alguma forma.</p>
    <p>O bandido de rosto à mostra era negro, de olhos grandes e parecia não se preocupar em mostrar sua identidade. Já o outro esforçava-se em se esconder: vestia um hoodie cinza e cobria toda a face com algo que o deixava com um rosto de Nazgûl, além de que só falava por sussurros asmáticos que precisavam ser frequentemente traduzidos pelo companheiro. </p>
    <p>Em certo momento meu pai levado por um deles ao posto de gasolina fazer a limpeza do cofre, que supunha o assaltante estar cheio dos proventos da semana. Não sei se o saque foi tão lucrativo, mas o bandido retornou com meu pai e então nos amarraram e nos amordaçaram com pedaços de nossos lençóis, rasgados ali mesmo. Lembro do meu irmão sendo amordaçado e não consigo ter certeza se ele estava chorando ou rindo.</p>
    <p>Deixaram-nos presos no quarto dos fundos da casa, com exceção do meu pai, que ficou confinado em um cômodo separado. Os assaltantes foram embora no nosso carro levando o que puderam carregar. Pouco tempo depois meu pai conseguiu se desamarrar e me recordo dos seus berros ao vizinho, pedindo socorro. Conseguiram nos libertar e meu pai foi de bicicleta à polícia (sério, memórias?), jurando vingança aos que ele chamava de &amp;ldquo;ladrões de galinhas&amp;rdquo;. Não pude entender onde as aves se encaixavam na trama do assalto.</p>
    <p>Sei que a polícia apareceu, mas não sei o quão implacável foi mesmo a perseguição aos ladrões. Dias depois vi meu pai dirigindo novamente o carro roubado, e nos tempos seguintes o assunto do assalto voltava nas conversas com detalhes complementares ao seu desfecho. Ouvia que os bandidos haviam sido capturados numa cidade vizinha, ou até mesmo mortos em confronto com a polícia.</p>
    <p>Esta é a melhor cronologia que consegui montar das memórias do assalto. Só não consigo encaixar em qualquer ponto dessa sequência uma informação: a AIDS. O fato ou boato de que o bandido encapuzado era HIV positivo paira em meio às lembranças, mesmo não tendo qualquer sentido ou relevância. Teria o próprio assaltante se declarado aidético enquanto nos amarrava ou o povo teria espalhado o boato depois? Além do mais, o bandido ter AIDS o faz ser mais temido? Talvez por não ter 
      <em>nada a perder</em>, como dizia-se dos soropositivos nos anos 90? Boatos carregados de preconceitos sempre confundem as coisas.
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    <p>No fim das contas, para mim o mistério mais intrigante ainda era o porquê de somente um deles ter ocultado sua identidade. O sinistro Nazgûl deveria ser alguém conhecido da família, supunha eu. E mesmo quando ninguém mais falava do assalto, em minha imaginação caótica todos à minha volta eram suspeitos.</p>