Lembro-me de Eva Doida, mulher que perambulava pela cidade perdida em problemas mentais. Alta, muito magra, suja e com um olhar assustador, nas minhas lembranças de infância Eva tinha o rosto igual ao do Michael Jackson zumbi em  Thriller.

    <p>Eva morava com a mãe em uma casinha muito simples onde ficava trancafiada num cômodo na parte da frente. Quem passava pela rua de barro podia se assustar ao encontrar o olhar sinistro de Eva, visível de uma pequena janela com grades. Ela permanecia lá, em pé, encarando os transeuntes.</p>
    <p>E assim passavam-se os dias de Eva Doida, hora perambulando nas ruas, hora presa em casa, sem hospital, tratamento ou mesmo comida, diziam. Reza a lenda que no passado Eva tinha sido uma moça sã e muito bonita, e seu estado devia-se a um estupro brutal.</p>
    <p>Minha mãe, como boa cristã, compadecia-se de Eva e de sua triste situação. Durante bastante tempo a ajudou como pôde, levando alimento e roupas à sua casa. Algumas vezes eu acompanhava minha mãe nessas visitas, apesar de morrer de medo de Eva e de seu olhar zumbi. &amp;ldquo;Levar a comida de Eva&amp;rdquo; acabou fazendo parte da rotina da minha mãe naquela curta época. Na escola, porém, essa assistência era motivo de piada por parte das outras crianças, que zombavam de mim e da minha mãe por irmos até Eva Doida. Certamente eu ficava triste e envergonhado, e ao mesmo tempo não conseguia entender por quê ajudar uma pessoa podia ser algo condenável. Por que riam da minha mãe? Por que zombavam de mim? Alguém no estado de Eva Doida deveria ser ignorado, excluído, desprezado? Refletir me faz creditar aos adultos e seu raciocínio egoísta e discriminatório refletido nas crianças da escola.</p>
    <p>Uma vez ouvi dizer que Eva, em suas andanças insanas, teria feito uma criança chorar de alguma forma. O pai brutamontes então teria se achado no direito de surrar a doida, espancando-a na rua mesmo. Tive pena de Eva.</p>
    <p>Eva Doida faleceu há muito tempo, e sinceramente não consigo me lembrar da causa da morte. O óbito foi tido pela cidade como um desfecho já esperado para alguém naquela condição. Eva Doida foi descansar e as ruas já não tinham aquela figura popular perambulando sobre si. Minha mãe chorou.</p>